Um país castrado pela desigualdade

Quem olhar para trás verá que, no século passado, entre 1930 e 1980, nosso país foi um dos que mais cresceu no mundo. Em seguida chegamos a alcançar a invejável posição de sétima economia mundial e nos tornamos um dos principais celeiros de produção agrícola de todo o planeta. Essa produção de alimentos permitiu que outros países conseguissem praticamente erradicar a pobreza. No entanto, aqui, a desigualdade social ainda é contraste brutal, escondido no fundo do baú há séculos, salvo alguns raros intervalos de adoção de políticas inclusivas. Agora o contraste é ressuscitado, com todos lamentando a desigualdade, mas em seguida esquecendo-a. Como se tivéssemos coisas mais importantes a fazer.

Estamos há décadas ouvindo que após o crescimento do bolo seria possível distribuir fatias maiores para todos e presenciamos o progresso direcionar esses frutos, mais ainda, para os que sempre ficaram com a maior parte. Algo como os 10% mais ricos, grupo social onde estão muitos de nós, que possuem mais de 40% da renda nacional (sem contar o patrimônio); que financiam a mídia, que põem e que tiram os políticos, na eleição ou fora dela; que alimentam as redes sociais apenas com alarido infame; que abominam a corrupção mas praticam amiúde pequenos deslizes, às vezes nem tão pequenos, nem tão inocentes.

Essa parcela da sociedade não vive com R$ 413,00 por mês, não dissipa 4 horas diárias para ir e voltar do trabalho, não entra na fila de um SUS que se esfalfa para atender 160 milhões. Pode pagar o convênio médico. Não enfrenta a enchente que, num relance, acaba com o teto e as humildes posses de uma família, levados pelas águas. Está a salvo da violência gerada pelo preconceito. Pode matricular seus filhos nas melhores escolas. Desconhece o drama do ensino público, onde uns tantos abnegados tentam transmitir conhecimento, com parcos recursos e em clima de insegurança que pode chegar ao terror.

Não podemos aceitar que portamos alguma anomalia atávica que sempre produz, como consequência, uma das sociedades mais injustas do planeta. Temos potencial para obter novos resultados que serão, inclusive, muito mais produtivos e vantajosos para todos. Outros países já o fizeram naquele mesmo período e hoje estão se beneficiando de uma sociedade melhor que a nossa. Números frios revelam que estamos na rabeira dos países, seja no IDH ajustado à desigualdade, seja no Gini ou na escala da mobilidade social revelada pelo World Economic Forum! E mesmo as tristes cifras desses indicadores são opacas, incapazes de desvelar o dia-a-dia de dor, de sofrimento e de perdas que se escondem atrás delas.

É preciso aproveitar a maior disposição das novas gerações que querem se libertar da herança tóxica e o farão, de uma forma ou de outra. Se formarmos juntos, em amplo pacto social empenhado na batalha contra a desigualdade, bastará que alguns cedam um pouco das suas benesses para que, em vez do conflito, se abra com honra e confiança o limiar do renascimento vital.

Para apontar mazelas urgentes de solução, para começar, estão a estrutura tributária brasileira, uma máquina insensata, que bombeia diuturnamente renda dos pobres para os ricos; e o desastre da iníqua política da educação, que vai de mal a pior, sem atender a maioria absoluta, e nos condenando até agora ao retrocesso permanente. Existirá corrupção mais nefasta do que essas pragas que atravessam governos?

Nossa proposta imediata é:

  1. A reforma tributária necessária precisa ser obtida já e não depois. Que o pacto social se coloque em marcha e transforme, já, neste ano, o sistema regressivo em alavanca de justiça e progresso, sem se perder em infantil disputa política pela iniciativa da proposta.

  2. Vamos todos decretar emergência nacional permanente na educação, colocando a demanda na mídia, na rede social, no governo, no Congresso, nas empresas, nas ongs, todos os dias, em todos os lugares, até que a vontade coletiva desbrave o caminho, vença a cegueira paralisante e resgate a cidadania.