As lições da pandemia levam o World Economic Forum a procurar um novo rumo
Capitalismo pós Covid

Out 12, 2020

KLAUS SCHWAB (fundador e chairman do World Economic Forum, entidade que, dentre outras atividades, realiza o encontro anual de Davos)

 

A pandemia COVID-19 destacou os riscos sociais, econômicos e ambientais que vêm se formando no último meio século de neoliberalismo. Mesmo em meio às profundas incertezas da situação global de hoje, uma coisa é clara: é hora de começar a questionar velhas suposições e desenvolver um novo paradigma.

 

GENEBRA – Nenhum evento teve, desde o fim da II Guerra Mundial, um impacto global tão profundo como a COVID-19. A pandemia desencadeou uma crise económica e de saúde pública numa escala que não se via há gerações, e agravou problemas sistémicos como a desigualdade e os maneirismos das grandes potências.

 

A única resposta aceitável a uma crise desta natureza é procedermos a uma “Grande Reinicialização” (no original: Great Reset) das nossas economias, políticas e sociedades. Na verdade, este é um momento para reavaliarmos as vacas sagradas do sistema pré-pandemia, mas também para defendermos determinados valores consagrados. A tarefa que enfrentamos consiste na preservação das conquistas dos últimos 75 anos de uma forma mais sustentável.

 

Nas décadas que se seguiram à II GG, o mundo registou avanços sem precedentes no sentido da erradicação da pobreza, da redução da mortalidade infantil, do aumento da esperança de vida e da expansão da alfabetização. Hoje, a cooperação e o comércio internacionais, que impulsionaram as melhorias do pós-guerra nestas e muitas outras medidas do progresso humano, têm de ser mantidos e defendidos contra um renovado ceticismo sobre as suas vantagens.

 

Ao mesmo tempo, o mundo também tem de permanecer concentrado na questão-chave da era pré-pandemia: a “Quarta Revolução Industrial” e a digitalização de inúmeras atividades económicas. Avanços tecnológicos recentes proporcionaram-nos as ferramentas de que necessitamos para confrontarmos a crise atual, nomeadamente através do rápido desenvolvimento de vacinas, novos tratamentos e equipamentos de proteção pessoal. Teremos de continuar a investir em investigação e desenvolvimento, educação e inovação, ao mesmo tempo que criamos proteções contra quem possa utilizar indevidamente a tecnologia.

 

Mas outras peculiaridades do nosso sistema econômico global terão de ser reavaliadas com uma mente aberta. A mais proeminente de todas será a ideologia neoliberal. O fundamentalismo do mercado livre desgastou os direitos dos trabalhadores e a segurança económica, provocou uma desregulamentação sem regras e uma ruinosa concorrência fiscal, e permitiu a emergência de novos e enormes monopólios globais.

 

As regras comerciais, tributárias e da concorrência que refletem décadas de influência neoliberal terão agora de ser revistas. Caso contrário, o pêndulo ideológico (que já se está a mover) poderá oscilar novamente no sentido do protecionismo generalizado e de outras estratégicas econômicas em que todos os intervenientes perdem.

 

Especificamente, teremos de reconsiderar o nosso compromisso coletivo com o “capitalismo” que conhecemos. Obviamente, não poderemos passar sem os motores básicos do crescimento. Devemos a maior parte do progresso social do passado ao empreendedorismo e à capacidade de criar riqueza baseada na tomada de riscos e na aplicação de novos e inovadores modelos de negócio. Precisamos que os mercados distribuam de forma eficiente os recursos e a produção de bens e serviços, especialmente para confrontarmos problemas como as alterações climáticas.

 

Mas temos de repensar o que queremos dizer por “capital” nas suas muitas iterações, sejam elas financeiras, ambientais, sociais ou humanas. Os consumidores de hoje não querem mais e melhores bens e serviços a um preço razoável. Em vez disso, esperam cada vez mais que as empresas contribuam para o bem-estar social e para o bem comum. Existe ao mesmo tempo uma necessidade fundamental e uma procura cada vez generalizada de um novo tipo de “capitalismo”.

 

Para repensarmos o capitalismo, temos de repensar o papel das corporações. Um dos primeiros expoentes do neoliberalismo, o economista laureado com o Nobel Milton Friedman, defendia (citando o antigo presidente dos EUA, Calvin Coolidge) que “o negócio dos negócios são os negócios” (no original, “the business of business is business”). Mas quando Friedman lançou a doutrina da primazia dos acionistas, não considerou que uma empresa de capital aberto poderá não ser apenas uma entidade comercial mas também um organismo social.

 

Além disso, a crise da COVID demonstrou que as empresas que investiram no fortalecimento da sua vitalidade no longo prazo estavam mais bem apetrechadas para enfrentar a tempestade. Com efeito, a pandemia acelerou a transição no sentido de um modelo de capitalismo empresarial centrado nas partes interessadas (no original, “stakeholders”) após a adoção deste conceito no ano passado pela Mesa Redonda Empresarial dos EUA.

 

Mas para que vinguem mais práticas empresariais socialmente e ambientalmente conscientes, as empresas precisam de orientações mais claras. Para satisfazer essa necessidade, o Conselho Empresarial Internacional do Fórum Económico Mundial desenvolveu um conjunto de “Métricas para o Capitalismo de Partes Interessadas”, para que as empresas possam estar no mesmo nível quando precisarem avaliar o valor e os riscos.

 

Se a crise da COVID nos provou algo, é que os governos, as empresas ou os grupos da sociedade civil que agem isoladamente não conseguem ultrapassar os desafios globais sistêmicos. Precisamos romper com as ilhas que mantém estes domínios separados, e começar a construir plataformas institucionais para a cooperação público-privada.

De forma igualmente importante, as gerações mais jovens têm de ser envolvidas neste processo, porque este é intrinsecamente sobre o futuro no longo prazo.

 

Finalmente, temos de expandir o nosso esforço para reconhecermos a diversidade de origens, opiniões e valores entre os cidadãos de todos os níveis. Todos temos as nossas identidades individuais, mas todos pertencemos a comunidades locais, profissionais, nacionais e mesmo globais com interesses partilhados e destinos entrelaçados.

 

O Great  Reset deveria procurar dar voz aos que foram deixados para trás, para que todos os que estejam dispostos a “moldar conjuntamente” o futuro possam fazê-lo. A reinicialização de que precisamos não é uma revolução nem uma transição para uma qualquer nova ideologia. Em vez disso, deveria ser vista como um passo pragmático no sentido de um mundo mais resiliente, coeso e sustentável. Alguns dos pilares do sistema global terão de ser substituídos, e outros restaurados ou fortalecidos. É isto que é precisamente necessário para alcançarmos o progresso, a prosperidade e a saúde partilhados.

 

 

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Métricas para o Capitalismo de Partes Interessadas

 

É um White Paper de setembro de 2020 preparado pelo World Economic Forum em colaboração com Delloite, Ernst Young, KPMG e Price Waterhouse 

 

Abaixo um extrato: